Alargar as ruas ou as calçadas? Essa foi uma das questões colocadas por Leonardo Brant, durante palestra dentro do Seminário “Educação para o Trânsito e Mobilidade Urbana”, realizado nesta terça, dia 30 de março, no Centro de Convenções da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Brant abordou o tema Cultura de Convivência, passando pela conceituação do que é Cultura e complementando o conceito, dando ênfase ao poder da transformação da Cultura para reconfigurar as dinâmicas sociais.
Foi a partir deste pano de fundo que o consultor defendeu que, na cultura automobilística, o carro é um elemento que pode ter uma representação, mas o seu uso é de responsabilidade do ser humano.
Ele citou que todos os usos do carro são condenáveis, uma vez que o automóvel traz impactos negativos ao meio ambiente, induz à velocidade, ao consumo desenfreado, exige o consumo de combustíveis; entre outros aspectos negativos.
De acordo com Brant, “o carro é o símbolo do que não precisamos ter”. Ele aponta que essa cultura automobilística prejudica o compartilhamento do espaço em sociedade; e dentro de uma cultura de convivência, coexistência e cooperação, o homem deverá fazer uma escolha, “se alarga as ruas para receber mais carros ou se aumenta as calçadas para dar espaço às pessoas?”
Ele argumentou que é dentro da lógica de construção de uma cultura da convivência é que temos que pesar os dois lados para escolher se devemos obter lucro ou ganhar em qualidade de vida.
Com reflexões do início ao fim, Brant encerrou sua palestra com três máximas: “Cada um é fonte inspiradora para os outros. Nós somos capazes de compartilhar o mesmo mundo e o trabalho de cada um forma o trabalho de todos.”
A sensação, de quem conferiu a palestra, foi que, não em vão: ele contou que há três anos deixou de ter carro próprio.
O que tem feito o Denatran pela Educação
Juciara Rodrigues, coordenadora do Departamento Nacional de Trânsito, convidada a abordar o tema “Políticas Públicas e Intersetorialidade”, disse que atua na Educação de Trânsito há 15 anos e que as mudança, tanto nos conceitos, quanto no trabalho realizado nesta área, foram significativas.
“Hoje, o conceito de educação compreende trânsito com algo inerente ao ser humano, tira a cultura automobilística e procura ver o pedestre, o ciclista, todas as pessoas como agentes que transitam e vão de um lugar ao outro e acessam todos os espaços. A dimensão é bem maior que a do passado,” argumentou.
Mas a coordenadora foi veemente nas limitações do papel educativo. “A educação sozinha não consegue dar conta de todas as respostas para o trânsito.“
Ela defende que sem que haja uma comunhão entre as diversas áreas como a estatística, a engenharia, a sinalização, a saúde; o trabalho educativo acaba não tendo tanta repercussão.
Para exemplificar o argumento, ela conta que o Denatran realizou uma pesquisa com os jovens e a grande maioria disse que não se lembrava de nenhuma campanha educativa do órgão. “Nós já investimos mais de R$ 120 milhões em campanhas; portanto, fica a pergunta: será que estamos fazendo a coisa certa?”, questionou-se.
Juciara afirmou que é preciso vencer o desafio das mortes e violência no trânsito com a intersetorialidade. “A Educação não pode ser sempre o foco das ações, pois sob essa justificativa passa a responder por todas as mazelas; e outros aspectos importantes são negligenciados”, complementou.
Segundo a coordenadora, coloca-se que 90% dos acidentes têm como causa o homem; e a partir dessa argumentação o problema do trânsito passa a ser apenas da educação.
Moradora de Brasília, ela lembra que a Capital do Distrito Federal já foi a cidade mais violenta no trânsito; e não foi apenas o trabalho educativo que mudou essa realidade.
“É preciso destacar o papel da fiscalização, da engenharia e de outras áreas nesta mudança. O trabalho intersetorial é fundamental. A união da saúde com a engenharia, com a sinalização. Tudo isso tem muito importância.”
Sobre o papel da Educação nas escolas, a coordenadora contou que a partir da orientação baseada no Parecer 22/2004 do Conselho Nacional de Educação do Ministério da Educação (MEC), que orienta que a Educação de Trânsito não deve ser uma disciplina nos currículos escolares, o Denatran passou a envidar esforços para elaborar recursos didáticos para discutir a educação de trânsito nas escolas.
“As dificuldades existem, pois muitos professores afirmam que não conseguem falar de trânsito porque não são motoristas – como se essa fosse a exigência.“
Ela lembrou a Resolução 265 do CONTRAN, que define como as escolas de ensino médio devem trabalhar a educação de trânsito, abordando a questão da atividade extracurricular e, ainda, citou as Diretrizes Nacionais para a Educação para o Trânsito, previstas na Portaria 47/2009 do Denatran.
“Buscamos mostrar aos professores as possibilidades que o trânsito traz para todas as disciplinas nas escolas. Temos uma regulamentação da educação básica. As escolas recebem essas diretrizes, mas nós não podemos obrigar ninguém a colocá-las em prática. Esse trabalho, por não ser obrigatório, é um trabalho de formiga. É preciso cativar e convencer.”
De acordo com Juciara, os documentos, referindo-se às portarias, pareceres e resoluções, permitiram uma grande evolução da educação de trânsito.
A coordenadora apresentou, durante a palestra, campanhas e ações desenvolvidas pelo Denatran como o “Trânsito Consciente” – 20 programas sobre diversos temas da Educação de Trânsito, com linguagem jovem para os alunos do ensino médio.
Mostrou, também, o Caderno Educativo para 864 municípios. Citou o Ciclo de Palestras, em 6 capitais para 9,6 mil alunos do ensino médio. E, ainda, para o ensino médio, o “Viva o Trânsito.”
O “Pela estrada afora” – 12 programas infanto-juvenis em parceria com a TV Cultura. “São vídeos com personagens dos contos de fadas que buscam salvar nossas crianças no trânsito”, também foi apresentado.
“Todos os materiais podem ser acessados pelo site do Denatran”, informou.
Além disso, em 2009, mais de 6 mil profissionais foram capacitados pelo Denatran, prestou contas.
Para 2010, ela afirmou que o Denatran pretende capacitar professores como multiplicadores de trânsito.
A violência, a desigualdade e a Educação
A professora da Faculdade de Educação da Unicamp, Ângela Soligo, apoiou sua apresentação em dois temas muito recorrentes tanto na Educação, quanto no Trânsito, e, também em nossas vidas: a violência e a desigualdade. Ângela abordou a Transversalidade e formação dos educadores.
Imagens de acidentes, da violência policial, na política, nos esportes, a violência familiar; e, hoje, o bullying (atitudes de chacota, piadinhas e agressões, que levam ao constrangimento ou isolamento de alunos nas escolas), e até a agressividade de uma criança, passam a fazer parte da nossa vida e da normalidade no nosso cotidiano, afirmou.
“A violência é sutil e perniciosa. Na comunicação, vemos a violência da propaganda que impõe modelos de sujeitos e modelos de consumo. Nas novelas, a solução dos conflitos usa sempre o recurso da violência. Basta lembrarmos que os vilões sempre apanham. Na Internet, as atitudes de violência, a exposição, a agressão das comunidades que atinge os adolescentes, marcam nossas relações. Nas escolas, a violência é forte nos livros, no curriculum, quando desqualifica a cultura que não é a dominante, que apresenta só branco e não o negro. Enfim, na própria escola, os padrões são excludentes.”
Enfim, ela conclui que a nossa história mostra que somos violentos em qualquer momento.
Já em relação à desiguldade, ela comenta que basta mais um olhar sobre imagens de favelas no Rio ou em São Paulo e do entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, para percebermos que a ocupação dos espaços é desigual.
“Ao olhar os espaços, vemos que os recursos são desiguais e que não temos as mesmas possibilidades de ir e vir e de acesso ao espaço urbano. Em qualquer cidade, há lugares onde existem políticas para o acesso e outros, que estarão sempre escondidos.”
Ela cita, como exemplo, que as classes média e alta não têm experiência do espaço da rua. Ao mesmo tempo, algumas crianças da classe baixa, quando vão aos shoppings, são seguidas por segurança. Isso, quando conseguem acessar esse espaço.
Ângela critica, ainda, que a transversalidade na Educação entendida como algo que atravessa o currículo e tira o cotidiano da escola da sua normalidade, não é suficiente. “Mas é o que acontece com temas como o trânsito e a água. É preciso entender a transversalidade no sentido de algo que perpassa as várias possibilidades de leitura do real. Não como o que atravessa, mas acompanha a sequência da educação e deve estar presente na forma de ensinar os determinados conteúdos ou desenvolver determinadas possibilidades do sujeito para ele fazer parte do conteúdo formativo.”
A educadora ressalta que esse é um desafio. “Educar é abrir horizontes. A educação tem que ser a do respeito. A relação do cidadão com o Poder Público não deve ser a da resignação; mas do cidadão, que busca a reciprocidade e que propõe mudanças. É na reciprocidade desse processo que conseguiremos avanços por um mundo mais fraterno, mais consciente e menos antropofágico.”




