Nos últimos dez anos, a frota de veículos em Campinas cresceu 52%, saltando de 378.909 veículos, em 96, para 561.116 no ano passado e a venda de automóveis e motocicletas na cidade, assim como em todo o País, não pára de crescer. Some-se ao crescimento da frota as restrições para a expansão de vias, a centralização dos serviços e os custos do transporte público, que restringem sobremaneira o deslocamento de 37 milhões de brasileiros que não tem dinheiro para pagar a tarifa. Está formado um quadro perverso, que em um futuro próximo condenará qualquer viabilidade da hegemonia do automóvel nas grandes cidades. Este foi o tema central da palestra “Era pós automóvel: os caminhos para este sonho”, ministrada pelo urbanista Nazareno Stanislau Affonso nesta terça-feira, dia 18, durante o Seminário Mobilidade x Acidentalidade, que marcou a abertura da Semana Municipal de Trânsito, no Auditório da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Affonso é coordenador nacional do Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade para Todos (MDT) e do escritório da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) em Brasília. Em sua apresentação, o urbanista defendeu o fim da hegemonia dos carros particulares e a construção de uma sociedade ambientalmente mais sustentável e mais cidadã do ponto de vista da mobilidade urbana, com a descentralização das atividades, a preservação do patrimônio histórico e a incorporação dos bairros mais antigos à nova realidade de cada cidade. “O modelo que temos atualmente está próximo da saturação. O automóvel tem que ser apenas mais um componente da circulação e a prioridade, toda do pedestre”, disse Nazareno, que criticou a fragilidade do Poder Judiciário. “O País precisa de um Judiciário mais forte. Hoje, a chance de você matar alguém no trânsito e ser preso é mínima. Precisamos de um Judiciário comprometido com a cidadania no trânsito e a punição aos infratores”, disse Nazareno. Na “era pós automóvel” proposta pelo urbanista, é prevista a melhoria na convivência entre pedestres, ciclistas e motoristas, sendo que o automóvel será apenas um complemento do sistema de transporte coletivo. O “sonho possível e necessário” – conforme define Affonso, a respeito dessa era -, conta também com uma sociedade mais conscientizada e mobilizada que, ao lado das empresas, atuará a favor da cidadania no trânsito. “Na era pós automóvel, cria-se uma nova estrutura em que o motorista pára e respeita a faixa de pedestres e demais sinalizações de trânsito não porque pode ser multado, mas porque sabe que essa é a atitude correta”, concluiu Affonso. Stephan Campineiro




