“O que é de todos não é de ninguém”. A análise mais profunda desta frase norteou o debate que abriu o “Ciclo de Conversas sobre Mobilidade Urbana” deste ano, realizado pela Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (EMDEC).
Na tarde desta quinta-feira, 20 de maio, no Auditório da EMDEC, cerca de 80 pessoas de diferentes profissões e cidades refletiram sobre a Ética no compartilhamento do espaço urbano. O encontro foi conduzido por Luciene Tognetta, professora do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora da Universidade Estadual Paulista (UNESP).
Para a palestrante, “estamos na era do movimento, da mobilidade, quando as pessoas vivem intensamente e trocam informações com muita rapidez. E tal situação acaba acarretando alguns problemas, algumas distorções”.
Pesquisas acadêmicas apresentadas pela professora demonstram que sem a devida fiscalização, as pessoas têm a noção de que tudo é permitido. “Temos fortes convicções éticas em relação aos outros, mas somos condescendentes com as nossas próprias ações. Isto acaba acarretando alguns erros de julgamento. O discurso fica diferente da prática, pois temos uma maior flexibilização, quando os padrões de conduta são aplicados a nós mesmos”, conclui.
Como exemplo, citou algumas situações. Quando a velocidade máxima permitida em uma via é de 60 km/h, mas naquele ponto não há radar para fiscalização eletrônica e uma pessoa está atrasada para um compromisso, ela se permite acelerar o veículo um pouco mais, para não perder a hora. Ou se alguém vai atravessar uma avenida movimentada para chegar ao banco antes que ele feche, ela não usa a faixa de pedestres e não espera o sinal ficar vermelho para os veículos, para não perder tempo.
O trabalho também mostrou situações em que o apego às regras convencionais, ligadas à convenções sociais, é maior do que o apego as regras morais, que são deixadas em último plano. “Ocorre uma inversão de papéis: os problemas morais, que são os que mais importam, são tratados de forma superficial; e os problemas de convenção, que são muitas vezes tolos, com mais ardor”, destaca Luciene.
Indignação e pertencimento
Para a pesquisadora, uma maneira de a Ética permear todas as situações é a indignação. As pessoas devem se colocar no lugar das outras. Entendendo que os problemas pertencem a
todos, as soluções para esses problemas também é uma responsabilidade de todos.
Este trabalho de indignação e pertencimento deve ser desenvolvido desde a infância e da adolescência. E a Escola tem um papel importante, neste aprendizado. “Essa é a tarefa dos educadores. Nós somos responsáveis pelo processo de humanização social, defende a educadora.
É importante, também, estabelecer uma parceria com as famílias para a resolução dos problemas. E todos esses conceitos também devem ser aplicados nos trabalhos de educação no trânsito.
Depoimentos
Rose Rios, 36 anos, chefe de Educação de Trânsito da Prefeitura de Jaú participou, pela primeira vez, do Ciclo de Conversas. Ela destacou que foi um aprendizado para todos. “A experiência é muito válida, porque cada cidade tem uma realidade diferente; e este momento de interação é ótimo para o intercâmbio de informações”.
Para Cristiane Castro Maciel, 32, pedagoga da Secretaria de Trânsito de Jaú, também pela primeira vez no Ciclo, o encontro é de “extrema importância para a troca de experiências, pois estamos aprendendo e, também, passando conhecimentos”.
Catia Louvandini, 45, coordenadora do Centro Infantil de Educação para o Trânsito da Prefeitura de Piracicaba definiu a discussão como “interessante, pois a ética deve permear todas as profissões”.
Maria Adélia, 45, coordenadora pedagógica da Prefeitura de Campinas, já participou dos eventos realizados no ano passado; e analisou que “os encontros estão cada vez melhores”.
Bertrand Gualda, 48 anos, técnico administrativo da Gerência de Obras da EMDEC se surpreendeu com o debate. “Quando vi o tema (Ética no compartilhamento do espaço: cidadania e gentilezas urbanas), pensei que fosse um encontro técnico; mas a reflexão foi positiva”.
A palestrante Luciene Tognetta afirma que espaços como esse são importantes para instigar, provocar e transformar a realidade.
Público diversificado
O primeiro Ciclo de Conversas reuniu representantes de Campinas e de outras 11 cidades: Americana, Bragança Paulista, Hortolândia, Jaú, Limeira, Paulínia, Pedra Bela, Piracicaba, Santa Barba D’Oeste, São José dos Campos e São Paulo.
O evento contou com profissionais de diferentes áreas, como Educação, Urbanismo, Saúde e Trânsito.
Para Roberta Mantovani, gerente de Educação e Cidadania da EMDEC, “foi um orgulho reunir neste ciclo vários segmentos profissionais, com o objetivo de discutir a Mobilidade Urbana”.
Próximo encontro
O próximo Ciclo de Conversas já tem data agenda. Confira:
10/06/2010 – Desenho Urbano: acessibilidade e inclusão social
– Conceito de acesso universal.
– Histórico de acessibilidade.
– Planejamento urbano inclusivo.
– Intervenção do poder público e sociedade civil-posicionamento.
– Formação de profissionais de arquitetura e urbanismo: como se trata o tema acessibilidade?
O palestrante será o Prof. Dr. Wilson Ribeiro dos Santos, da PUC Campinas. O local ainda será definido pela EMDEC. Outras informações e a programação completa do Ciclo de Conversas podem ser acessadas pelo site da EMDEC (www.emdec.com.br).
Ciclo de Conversas sobre a Mobilidade Urbana
Promovido pela EMDEC, o ciclo é um fórum de debates mensais, que visa reunir vários segmentos sociais e representantes do meio acadêmico para aprofundar a análise de temas relacionados à Mobilidade Urbana e estimular parcerias para a redução da acidentalidade e melhoria da qualidade de vida no município.
Neste ano, a principal novidade do Ciclo é abertura do debate também para representantes de outras cidades, atendendo à demanda registrada nos últimos eventos realizados pela EMDEC.
O Ciclo de Conversas sobre a Mobilidade Urbana vai promover mais cinco debates, até novembro.




