Se os bondes ainda reinassem absolutos pelas ruas de Campinas, a Era da Informação poderia ser menos corrida, mais tranquila; já os antigos veículos de tração animal não poluiriam tanto a atmosfera. Estas afirmações, ditas românticas, tropeçam em uma constatação: os modelos se esgotam, e precisam evoluir.
Foi uma das conclusões da palestra “Olhares sobre a cidade: o papel da educação na construção de uma Mobilidade Urbana de qualidade”, o segundo evento em 2011 do Ciclo de Debates da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (EMDEC), realizado quinta-feira, dia 2 de junho, na Sala de Treinamento da empresa.
Maurício Thesin, formado em Tecnologia na Área de Transportes e especialista em Planejamento e Gestão de Transporte Urbano, discorreu sobre o tema com educadores, profissionais e segmentos sociais interessados em discutir a Mobilidade Urbana.
O atual diretor de Desenvolvimento e Infraestrutura Viária da EMDEC destacou a saturação da Mobilidade Urbana em 2% das cidades brasileiras neste início de século – mais especificamente em 81 municípios, onde se encontra cerca de 25% da população.
Segundo estatísticas apresentadas por Thesin, 89,40% dos 5.565 municípios do país – que possuem menos de 50 mil habitantes –, não sofrem com problemas crônicos de Mobilidade. Os maiores desafios se impõem em cidades como Campinas, onde a taxa de motorização é de 1 veículo para cada 1,47 pessoa.
A solução passaria por aumentar a taxa de ocupação dos veículos. “Se em cada viagem de carro entrasse mais alguém, cortaríamos a frota pela metade, ganhando fôlego em termos de investimento na infraestrutura”, analisa Thesin.
A autonomia e a flexibilidade dos automóveis, adequadas aos tempos modernos, não precisariam ser sinônimos de individualismo; as campanhas educativas da EMDEC, aliás, têm enfatizado o valor das caronas programadas.
Já o sistema de transporte público deve respeitar, de acordo com o especialista, parâmetros como funcionalidade, praticidade e atendimento diferenciado; necessita promover mais viagens coletivas com menor frota circulante, mantendo o conforto; além de atentar para a melhor relação entre preço e custo.
Na Mobilidade Urbana como um todo, o verbo seria coletivizar, acompanhado pelos substantivos conforto, rapidez, segurança e preço. Também não poderiam faltar a acessibilidade e a sustentabilidade – e, por que não, a felicidade. “Quando o tempo de viagem está comprometido, prejudicamos nossas atividades cotidianas”, analisa Thesin.
O cálculo é simples e genérico: se um indivíduo trabalha 8 horas por dia, dorme outras 8 e reserva 2 horas para as refeições, sobram 6 horas para os demais compromissos. Restringi-los teria impacto direto na qualidade de vida.
Quando a taxa de ocupação dentro dos veículos for maior, o “descompasso” do sistema viário – resultado de uma série de fatores, desde o planejamento desenfreado das décadas anteriores até a ascensão de classes antes marginalizadas na pirâmide de consumo, pondo mais carros nas ruas – encontrará um remédio para gradualmente se reequilibrar.
Também no sentido da interconexão entre os diferentes atores em circulação, as ciclofaixas e ciclovias chegam para tornar Campinas referência em termos de uso da bicicleta como meio de transporte. O município possui, atualmente, 34,5 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas.
Thesin trouxe à tona o passado e o presente, com fotos e vídeos de como o modelo anterior, dos trilhos que orientaram o desenvolvimento da cidade, foi se inviabilizando, culminando no ocaso dos bondes em 1968.
Identificou, ainda, impulsos humanos ancestrais relacionados à “adrenalina” e à potência dos motores, que ampliam os riscos nas ruas e avenidas graças às velocidades alcançadas; e, ao mesmo tempo, o paradoxo de este deslocamento ser prejudicado pela ampla oferta de veículos.
O palestrante idealiza um trânsito que funcione “por música”, e ilustra esta ideia com imagens não necessariamente associadas ao meio artístico, porém simbólicas no quesito harmonia: as paradas militares. O automóvel não deveria ser incompatível com o fluxo, mas integrar-se a ele.
O isolamento do motorista transformou-se em um tópico crucial nesse debate. O trânsito enquanto agrupamento consciente, uma espécie de organismo, e não apenas a soma das partes.
O Ciclo de Debates é organizado pela EMDEC com o apoio de universidades, entre elas Anhanguera Educacional, Faculdades de Campinas (Facamp), Metrocamp, PUC Campinas, Unicamp e Núcleo de Prevenção de Violência e Acidentes de Campinas.

10/06/2026/
Com o objetivo de aumentar a segurança viária e melhorar as condições de fluidez no trânsito, a Secretaria de Transportes...



