Os debates entorno do tema “A disputa e o compartilhamento do espaço” – pauta do Ciclo de Conversas sobre a Mobilidade Urbana, que aconteceu na Faculdades de Campinas (Facamp), na quinta-feira, dia 3 de setembro – abordaram conceitos centrais da geografia e filosofia para a compreensão da Mobilidade, na sociedade contemporânea. Por um lado, a complexidade e multiplicidade de conceitos que contornam o tema foram levantados pelo geógrafo, Eduardo Marandola Jr., que defendeu a proposta de pensar a mobilidade como ator e não resultante do processo da vida moderna. “É preciso ficar claro que a mobilidade contribui para pensar como a cidade tem que se organizar”. O geógrafo analisou a questão vivenciada por toda a sociedade em relação à privatização dos espaços, seja de forma legalizada ou não. A apropriação do espaço está ligada ao poder (jurídico, simbólico e até pode ser violenta). E, é essa apropriação que gera a redução dos espaços de convivência, o medo, a insegurança e a restrição da mobilidade urbana, argumentou. Segundo Marandola Júnior, essa fragmentação urbana que resulta na fragmentação social e sobrecarrega a gestão pública na construção de políticas e propostas para a mobilidade urbana. Uma das idéias chaves colocadas pelo palestrante foi que o homem moderno se vê frente à falta de uma experiência de unidade espacial, que enfraquece conceitos como o bairro. “Fala-se muito em cidades dormitórios, mas os médios e grandes centros vivem com inúmeros bairros dormitórios, uma vez que as pessoas estão sempre realizando trajetos e caminhos para acessar serviços, trabalhos e estudos; e, praticamente, voltam ao bairro apenas para o descanso. O geógrafo também abordou a questão da territorialidade e do conceito de segurança. Ele lembrou que a casa é o principal espaço ou território de segurança e que a mobilidade nos expõe a riscos. A partir desse contexto, defendeu que o espaço público no mundo moderno é um espaço de perigo; e ,sob à luz dessa interpretação, é que, hoje, os centros das cidades (espaços públicos) são considerados áreas de risco e espaços privados, exemplifica, os shoppings, se tornam pseudo espaços públicos. Ainda abordando conceitos de territorialidade na cidade, Marandola Júnior discutiu conceitos para a rua, definindo as vias como espaço de encontro e convivência, e não só de carros; mas também de bicicletas, de pessoas, de travessias e de sobrevivência. Destacou o papel dos bairros, que está associado diretamente à casa (nosso porto seguro) e à mobilidade. “Se os serviços, bens e necessidades do homem estiverem próximos do cidadão, os deslocamentos e movimentações podem ser reduzidos`, defendeu o geógrafo. Ele acrescentou, ainda, que o bairro, portanto, deve ser pensado como um componente essencial para o futuro das cidades. Marandola Júnior deixou claro em sua abordagem que a “mobilidade é uma questão geográfica”, que envolve dentro da sua complexidade conceitos, temas e dimensões desta área. Uma visão filosófica Durante o Ciclo de Conversas, o professor de filosofia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Silvio Rosa Filho, trabalhou o tema da Mobilidade, a partir de uma visão histórica e filosófica. Lembrou a mudança do conceito de mobilidade, destacando que na Grécia antiga só os escravos se movimentavam. Portanto, a mobilidade era sinônimo de escravidão. Em contrapartida à visão de hoje, que leva ao entendimento que a mobilidade está ligada a liberdade. O filósofo citou vários autores. Entre eles, Sócrates, que entendia que o movimento era tudo aquilo que instigava à reflexão. Na visão de Santo Agostinho, também lembrou, “todos somos peregrinos e estamos de passagem”. Já com Thomas Hobbes, no século XVII, novas abordagens são colocadas: a vida é movimento; a liberdade é a ausência de obstáculos; uma força motriz impulsiona o movimento. A do desejo ou do medo, que podem respectivamente nos aproximar ou afastar do objeto do prazer; Razão é cálculo; afinal, o que é felicidade? E, o desejo é infinito. Outros teóricos como Jeremy Betham também foram referenciados para apontar caminhos para a compreensão do tema com a célebre frase: “A medida de todas as coisas é o homem”. Denise Pereira

10/06/2026/
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