Os desafios de planejar grandes eventos como uma Olimpíada ou uma Copa do Mundo foram mostrados por especialistas em planejamento da Inglaterra, que sediará os próximos Jogos Olímpicos (2012) e da África do Sul, que receberá a Copa do Mundo (em 2010), durante o 2º Seminário Nacional de Sistemas Inteligentes de Transportes em Campinas, nesta quarta, dia 30 de julho. A proposta dos painéis foi trazer para os brasileiros as experiências e a complexidade do planejamento vivenciada por estes países que antes do Brasil, realizarão seus eventos. Duas experiências bastante diferentes: por um lado, a África com enormes desafios a superar; por outro, a Inglaterra e todo aparato tecnológico que poderá ser utilizado nas Olímpiadas. Para o consultor da África do Sul, Richard Gordge, que atua no órgão que corresponde a um Departamento do Sistema Nacional de Transporte para a Copa do Mundo, sediar um evento dessa natureza é uma tarefa gigante e ele alerta que seis anos de trabalho representam pouco tempo. Gordge disse que pode deixar como lição para o Brasil que o transporte é um dos principais legados desses eventos. “É preciso pensar no que existe, no que precisa ser construído, em treinamento de profissionais, em parcerias, nos estádios, e acima de tudo numa coordenação do evento que empolgue o país sede para facilitar os trabalhos. Um outro dado crucial, defende o consultor, é tirar ao máximo informações de quem já realizou esses eventos, ainda que as realidades sejam muito diferentes. “A partir da experiência dos outros, é possível durante o planejamento sair 20 vezes à frente para realizar o que ter que feito”, argumenta. Gordge defende que as autoridades brasileiras devem acompanhar o que está sendo feito hoje na África para realizar o seu evento em 2014. O que deve ser planejado Para o consultor, o planejamento do evento deve em primeiro lugar ter um conceito sobre os deslocamentos e o transporte que se quer oferecer. Na África do Sul, praticamente não existe um transporte terrestre adequado e forte, diz. O transporte ferroviário também é bem deficiente e para um torneio de 5 semanas, onde cidades pequenas não contam com linhas aéreas e só poderão dispor de deslocamentos terrestre, os problemas são grandes, mesmo com essas cidades recebendo apenas uma partida, avalia Gordge. A questão das acomodações também é um tema crítico, enumera o consultor. “Existem cidades, onde contamos com 5 mil leitos e devemos receber cerca de 30 mil pessoas. Nestes casos, vamos utilizar escolas, casas e até incentivar viagens de ida e volta no mesmo dia dos jogos”. Gordge conta que até mesmo o período de férias foi mudado para facilitar os deslocamentos e minimizar os problemas. O Brasil, segundo o consultor, também deve pensar no público que pretende atrair. A Alemanha, por exemplo, trabalhou com a expectativa de 2 milhões de turistas em razão do Mundial da FIFA. Na África do Sul dos 32 países participantes da Copa, 26 virão de outros continentes.”Trabalhos com uma expectativa para hospedar 50 vezes mais pessoas do que no maior evento já realizado no país e o transporte é que poderá coordenar tudo isso. Esse é para nós o item mais importante. Na seqüência, a segurança.” Ele defende que o transporte será o determinante e são vários itens a serem trabalhados: as conexões ferroviárias, rodoviárias os aeroportos e tudo precisa ser melhorado. O Consultor lembra ainda que a malha viária do país é muito pobre e que este é um grande desafio. “Não queremos que os turistas da Copa venham para África para alugar carros, pois seria um risco tremendo de acidentes e mortes. Para evitar isso, serão injetados U$S 2 bilhões no sistema de transportes e tráfego. Outros desafios Dimensionar os custos de um evento como uma Copa do Mundo também não é tarefa simples, defende Gordge. “Todos os nossos orçamentos e cifras praticamente dobraram na hora de iniciarmos a execução dos projetos. È preciso trabalhar com muito cuidado para todo o planejamento não ser anulado.” Segundo avaliação do consultor, apesar de todos os esforços o país ainda está bastante atrasado para todos os trabalhos a serem executados. Ele lista ainda que é preciso pensar em aspectos de atendimento ao consumidor, de profissionais para execução dos serviços, de operadores especializados para alfândega, aeroportos, sinalização, bilheterias, estruturas regulatórias, segurança de transporte e de tráfego. Saiba mais sobre a próxima Copa na África Quinto maior país do continente africano, a África do Sul tem 45 milhões de habitantes, sendo 50% da sua população urbana, e nenhuma tradição no futebol. A liga de Futebol só tem três times com grandes torcidas e nunca houve interesse na utilização dos estádios e na lotação dos mesmos para este tipo de esporte. Com mesmo fuso horário da Europa Ocidental, o país vai realizar a maioria das partidas da Copa às 20 horas. Nove cidades receberão os jogos da Copa do Mundo 2010 e as partidas serão realizadas em 10 estádios. No total, serão 48 confrontos ou jogos. A maior cidade é Johannesburgo, com 4,5 milhões de habitantes, que sediará a final da Copa. Pretória, a capital, conta com 2,5 milhões de habitantes. Mas partidas serão realizadas em cidades de porte médio e até pequeno. Serão construídos para o Mundial de futebol cinco novos estádios. A FIFA exigia dois, afirmou Gordge. Londres utiliza simuladores e se preocupa com a segurança nas Olimpíadas Ainda que uma Olimpíada e uma Copa do Mundo de Futebol tenham muitas semelhanças, por serem eventos globais, com platéia planetária, público multicultural e racial, a realidade mostrada sobre como Londres está planejando os Jogos Olímpicos é bem distinta da realidade da África. As preocupações reveladas pela a Inglaterra, por meio do consultor da Légion Londres e diretor do Projeto de Mobilidade dos Jogos Olímpicos de 2012, Iam Emslie, se direcionam para a questão da segurança. “É necessário pensar que na gestão da mobilidade de multidões nos grandes eventos é sempre possível acontecer o pior e temos obrigação de evitar tragédias”. Segundo o consultor, numa Olimpíada a questão do transporte gira muito mais entorno do deslocamento dos atletas. Mas de forma geral, o deslocamento do público está sendo pensado dentro de uma lógica onde a ocupação no sistema de transporte deve ter conforto – o que resulta também em segurança, argumenta. O mais difícil é definir a tecnologia a ser utilizada para garantir essa segurança, com tanta antecedência, afirmou. “Devemos utilizar sistemas semelhantes a de aeroportos para os acessos e deslocamentos aos eventos”. Outro desafio é definir o orçamento para todo o projeto. “Em Londres já ultrapassamos em sete vezes os custos pré-definidos e existe uma pressão política enorme para redução dos gastos”, conta o consultor. E olha que Emslie afirma que não quer repetir a experiência de Atenas, que sediou os últimos Jogos e foi criticada por mostrar grandes arenas olímpicas e público pequeno. Ele lembra que boa parte da infra-estrutura para os Jogos Olímpicos torna-se obsoleta 15 dias após o evento. “Não queremos estádios enormes que virarão ´elefantes brancos´ após o evento”. O consultor apresentou, durante o 2º seminário, como Londres vem utilizando ferramentas de simulação para testes de evacuação do público em estádios e na circulação dentro das estações de metrô, como facilitadores da mobilidade do público. Segundo Iam Emslie, o projeto foi oferecido ao Brasil para ser testado no Maracanã para se conhecer como se desloca o público brasileiro em grandes eventos. “Em cada espaço e em cada cultura, a mobilidade é muito diferente, argumenta. Mas o projeto não foi levado à frente”. Emslie defendeu que o uso dessas ferramentas de simulação pode atender a qualquer demanda projetada e elas são essenciais para um bom planejamento. Denise Pereira

11/06/2026/
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