Foi inaugurada nesta “cabalística” sexta-feira, dia 11.11.11, a exposição-intervenção “A Cidade de Cara a Cara”, do artista visual campineiro Agostinho Gomes (na foto, à esquerda). A mostra ficará por duas semanas no Terminal Ouro Verde.
No projeto, transeuntes que circulavam pelo Largo do Rosário nos dias 19 e 20 de julho contaram suas histórias de vida à equipe de produção; posteriormente, foram selecionados 25 perfis, em cujas fotografias Agostinho Gomes interveio usando técnicas de arte digital.
As obras foram produzidas por impressão digital em telas especiais de grande formato (2,20m x 1,20m) e esticadas em totens de estruturas metálicas, expostos no Terminal Ouro Verde. Na frente do totem, fica a imagem estilizada do entrevistado; atrás, sua minibiografia, incluindo cidade natal, idade, estado civil, profissão, história, religião, hobby, lembrança/cena agradável, sonho/desejo e uma citação própria.
A escolha dessas 25 pessoas, entre mais de 160 participantes, considerou sua pluralidade cultural, social, étnica e etária.
Agostinho Gomes detecta uma singularidade nessa pluralidade. “Em quase todas as histórias, a pessoa passa por um momento de desafio, de perda. O que eu gostei foi que todos superaram. Os questionários podem até retratar momentos de dificuldade na vida, mas todos relataram uma superação, que traz uma positividade perante a vida”, relata o artista.
Caso, por exemplo, de Kátia Araujo Martins (foto), a campineira Kaká, 43, florista do bairro Jd. Carlos Lourenço. Há dois anos, ela sofreu três AVCs e permaneceu 28 dias em coma. Na obra, declara crer no milagre de ter voltado à vida e sentir-se amada pelo marido e pelos dois filhos.
“Tudo o que eu passei não foi fácil. Eu acordei e não sabia o que estava acontecendo comigo. Saber que eu estava na UTI foi muito difícil, mas a vontade de viver foi maior”, diz Kaká, ao lado da tela. “Cada um tem uma vivência; a gente passa pelas pessoas sem saber o que está acontecendo em suas vidas. Ninguém sabe, por exemplo, que eu fiquei entre a vida e a morte e estou tentanto viver pra ver meus filhos crescerem”.
Kátia declara, no texto da obra, que gosta de praia e passeios ao ar livre, ama Campinas e tem enorme gratidão pelos médicos locais. Sua citação é “Gosto de minha vontade de viver. Sou amada por Deus e pela família, agradeço a todos que torceram por mim”.
Chamou a atenção de Agostinho Gomes o carinho dos entrevistados pela cidade. “Todos os que nasceram em Campinas e os que migraram a amam; as pessoas gostam, querem ficar, ninguém quer ir embora daqui. Eu achei linda essa questão da identidade, de amar onde se está”, comenta.
A aposentada Benedita da Silva Vilaverde (foto), a Benê, 79, que mora no Centro, veio com os irmãos e a mãe viúva para Campinas aos 9 anos de idade. Aos 16, começou a trabalhar na Coletoria Federal, onde se aposentou. Gosta de teatro, frequenta o grupo de terceira idade do Sesc e adora correr – é maratonista há 22 anos.
“Para mim a experiência de participar da exposição foi surpreendente; a gente não esperava por isso, fiquei muito emocionada. Eu acho que é um começo, uma forma inicial de enxergar as pessoas. Senti muita gratidão”, resume Benê.
Sua lembrança/cena agradável foi de quando recebeu o diploma no antigo Teatro Municipal. Seu sonho, “realizar coisas novas sempre”. A citação que proferiu, “Que o amor esteja presente em nossas vidas, não só por outro alguém, mas por todas as pessoas”.
Diversidade
Sobre reunir diferentes biografias, Agostinho Toleto explicou que trata-se de uma “diversidade com representatividade”: “É uma diferença que eu constato, que eu percebo, mas também há traços comuns. Seja por um viés econômico, cultural, seja por qualquer viés, eu consigo perceber que, apesar de existir uma diferença, eu consigo de alguma forma me identificar com ele”.
Reforça-se, assim, uma identidade a partir do outro. “Na medida em que eu vejo a diferença do outro, também fortaleço minha identidade em ser diferente dele. Mostramos, aliás, um leque absolutamente neutro: não é uma mostra política, não é uma mostra sociológica, é uma mostra antropológica, humanista. Esse é o objetivo”, conclui o artista.
Saiba mais
A exposição passa por três locais desde outubro: Largo do Rosário (dia 28 de outubro, já encerrada), Terminal Ouro Verde (a partir da sexta-feira, dia 11) e Parque Taquaral (dia 25 de novembro).
Todo o projeto vem sendo documentado em vídeo pelo Laboratório Cisco. O trabalho fotográfico ficou a cargo dos fotógrafos Ricardo Lima e Marco Flávio. Viabilizada pelo Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo (Proac), “A Cidade de Cara a Cara” é produzida pelo Ateliê Aberto Produções Contemporâneas e patrocinado pela 3M, com apoios de EMDEC, Serviços Técnicos Gerais (Setec) e Secretaria de Cultura de Campinas.

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