No último Ciclo de Conversas deste ano, realizado na última quinta-feira, dia 27, na sede da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (EMDEC), a jornalista Ana Carolina Bertho, doutorando pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), apresentou estudos que relacionam a acidentalidade no trânsito à vulnerabilidade social.
Repleta de estatísticas e problemáticas envolvendo públicos específicos –pedestres de 0 a 14 anos e acima de 60 anos, motociclistas acidentados de 15 a 24 anos – a palestra abordou a influência do contexto socioeconômico na periculosidade do trânsito.
Estudos apontam, por exemplo, que crianças sofrem acidentes sobretudo quando estão a pé. Se em bairros com menor renda per capita elas tendem a brincar mais nas ruas, isso gera vulnerabilidade. “Às vezes falta discernimento; as crianças podem perder a noção do perigo”, comenta Carolina.
A jornalista lamenta que fatalidades ocorram por causas externas; na faixa etária dos idosos, a taxa de letalidade é alta, ou seja, a cada mil feridos no trânsito de Campinas, 59,8 falecem (estatística de 2006). Na faixa etária 0-14 anos, são 5,6 vítimas fatais. “O idoso têm dez vezes mais chance de morrer em decorrência desses acidentes, na comparação com as crianças”, alerta. Acidentes que ocorrem, na maioria das vezes, quando esse segmento sai para cumprir tarefas cotidianas.
Quanto aos motociclistas, Carolina forneceu dados de 2010 da EMDEC, segundo os quais as motocicletas se envolveram em 47% dos acidentes fatais registrados na cidade no ano passado (40% das ocorrências fatalizando motociclistas e 7% fatalizando pedestres).
“A moto é vista como símbolo de ascensão social, progresso e até qualidade de vida, mas ao comprá-la, vêm os riscos inerentes a ela”, ressalta a jornalista. A frota de motocicletas, aliás, cresce vertiginosamente – mais que triplicou entre 2001 e 2011.
Carolina criticou recente campanha publicitária, que sugeria a “emancipação” do transporte coletivo em favor da motocicleta; há dois anos atrás, segundo dados fornecidos na palestra, das 37.594 vítimas fatais por acidentes de trânsito no Brasil, apenas 177 estavam em ônibus.
A palestra concluiu, assim, que a vulnerabilidade social pode ser um agravante da vitimização no trânsito. Embora os mais pobres não sejam necessariamente os mais atingidos, existem situações intermediárias em que a população consegue escolher como fará o deslocamento, nas quais, ainda que vença outros riscos graças à facilidade para fazer as viagens, acaba se expondo aos perigos do trânsito (caso específico dos motociclistas).
Todos esses dados foram contextualizados pelos seguintes números da Organização Mundial da Saúde (OMS): 1,2 milhões de pessoas morrem a cada ano nas ruas e estradas de todo o mundo, enquanto de 20 a 50 milhões sofrem lesões não fatais. O detalhe é que mais de 90% dessas mortes ocorrem em países de salários baixos e médios, que possuem apenas 48% da frota mundial.
Ana Carolina Bertho é formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Possui especialização em Jornalismo Científico e mestrado em Demografia, ambos pela Unicamp. Atualmente, cursa o doutorado na mesma área.
O Ciclo de Conversas é um fórum permanente que reúne representantes de vários segmentos sociais, especialmente o educacional, para debater temas relacionados à Mobilidade Urbana. É organizado pela EMDEC com o apoio de universidades, entre elas Anhanguera Educacional, Faculdades de Campinas (Facamp), Metrocamp, PUC Campinas, Unicamp e Núcleo de Prevenção de Violência e Acidentes de Campinas.

10/06/2026/
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