Será que não estamos preenchendo com produtos nosso vazio interior? Viramos outdoors ambulantes para o marketing capitalista? Indagações como essas, respectivamente do escritor Érico Veríssimo e do poeta Carlos Drummond de Andrade, embasaram a palestra “Consumo Consciente”, ministrada pela jornalista Edna Borges a colaboradores da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas – EMDEC – nesta segunda-feira, 4 de abril.
O evento inaugurou o calendário de atividades do Programa ELOS, projeto permanente de requalificação do uso de recursos, produtos e serviços da EMDEC, considerando seu impacto e as consequências para o meio ambiente e a sociedade. Edna é consultora do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente.
A noção de comunidade, diversa da individualidade consumista, despreendida do bem comum, foi um dos pilares da apresentação. “Não estamos sozinhos, nossas mudanças refletem no outro”, resume a jornalista. Pensar coletivamente, porém, passaria pela tríade sensibilização, conhecimento e prática. Em um primeiro momento, sensibilizar por uma causa, “tocar o coração”, nas palavras da palestrante. Em seguida, assimilar conhecimento. No último e decisivo passo, pôr a intenção em prática.
“Sozinho, o conhecimento não vale nada”, conclui Edna, que considera o Programa ELOS uma “ferramenta” para implementar novas atitudes relacionadas à sustentabilidade. Futuramente, aliás, a intenção é que o ELOS transcenda os muros da EMDEC, e que os colaboradores da empresa sejam multiplicadores das práticas sustentáveis dentro e fora de casa.
Para ilustrar a necessidade de posturas ambientalmente responsáveis, foram reunidas estatísticas sobre explosão demográfica e massificação do consumo.
Em 1960, havia cerca de 3 bilhões de pessoas no mundo, contra o dobro, 6 bilhões, em 1999 – hoje já somos por volta de 7 bilhões. As compras de produtos e serviços domésticos, para citar um exemplo, saltaram de 5 para 20 trilhões de dólares nas quatro décadas.
Se em 1800 o planeta abrigava 1 bilhão de seres humanos, calcula-se uma população global de 9 bilhões em 2045. A Terra vai aguentar?
“O objetivo do consumidor não é possuir coisas, mas consumir cada vez mais e mais a fim de com isso compensar o seu vácuo interior, a sua passividade, a sua solidão, o seu tédio e a sua ansiedade”, analisa Érico Veríssimo. A também escritora Clarice Lispector prefere a ironia: “Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito”. Ambos foram parafraseados por Edna.
Os slides viajaram desde o tempo das cavernas, com a caricatura de um homem animalesco, cru e primário, até a foto de uma multidão em Jacarta, Indonésia, acotovelando-se por telefones celulares em liquidação – uma aglomeração típica do reino animal. Outra imagem flagrava um aglomerado humano em decorrência do lançamento do iPad 2, da Apple.
Ainda brincando com a ideia de massificação, o “macroscópio” de Edna Borges mostrou a foto do que de longe parecia ser um muro de concreto, mas que se revelou um verdadeiro mar de aparelhos celulares à medida em que a imagem foi sendo ampliada.
Tudo para despertar a plateia sobre a inconsequente conduta de deixar-se levar pela indústria cultural e pelos apelos da sociedade de consumo, que promete orquestrar nossos sonhos, porém nos faz regredir a cardumes famintos.
“Você compra para mostrar aos outros que está comprando”, critica a oradora, após mostrar com bom humor propagandas vintage [antigas] de ferros de passar, enceradeiras e grills da General Electric, os quais prometiam “Confôrto ao seu lar”, na grafia da época. “Esses sonhos são realmente nossos?”, pergunta.
4 Rs
Rever tantos hábitos pessoais é um processo de longo prazo, mas o planeta carece de cuidados imediatos. A par desse choque entre o curto e o longo prazo, o Programa ELOS da EMDEC nasce propondo “4 Rs” de consumo consciente: reduzir o consumo, reutilizar os produtos, reciclar os resíduos e recriar a forma de consumo. Equilíbrio é a palavra-chave.
Uma pesquisa citada por Edna, que é pós-graduada em Educação e Ação Social com ênfase em Desenvolvimento Sustentável pela PUC-Minas Gerais, questionava a 100 pessoas com mais de 90 anos o que elas fariam diferente se pudessem voltar no tempo. Disseram, entre outras respostas, que refletiriam melhor e realizariam coisas que permanecessem no mundo após sua morte. As duas intenções – pensar duas vezes para transcender o consumo desenfreado e projetar as futuras gerações – contemplam a busca pela sustentabilidade.
Outros testes foram realizadas durante a própria palestra “Consumo Consciente”. Quais perfis os espectadores tenderiam a repetir? O tipo que só reclama de tudo? O tipo que diz não ter tempo para se envolver com os grandes problemas? Ao final de uma hora e meia de apresentação, todos receberam um pequeno pedaço de papel – reaproveitado, evidentemente – onde deveriam anotar seus primeiros compromissos em prol da sustentabildade. O fiscal da mudança de conduta será cada um, e sua própria consciência.
Repercussão
O evento ecoou positivamente entre quem semeia o futuro. Débora Cristina Damasco, 41, do Departamento de Programas de Educação, reafirma o valor das pequenas atitudes para mudar um panorama que considera “bem grave”. “Trabalhamos muito na educação a questão do carro, seu uso disciplinado. As pessoas resistem ao transporte público, mas daqui a 10 anos teremos um número maior de veículos que de pessoas em Campinas”, ressaltou.
Paralelamente aos desafios da mobilidade urbana, Débora pretende adotar cuidados tão discretos quanto importantes, como usar menos copos plásticos e fazer uso inteligente do papel, evitando imprimir os textos antes de revisá-los.
Antes mesmo da palestra, já havia boas iniciativas em andamento na EMDEC. O gerente de Tecnologia da Informação Rodolfo Marincek Neto, 49, vem liderando a substituição de copos descartáveis de plástico por garrafas.
O próximo passo poderá ser tomar café em copinhos de papel, com colheres de madeira semelhantes a palitos de picolé. “Apresentamos propostas que outros departamentos poderiam incorporar ou utilizar. A economia ainda não é substancial, mas se todos pusessem as ideias em prática…”, imagina Marincek Neto, que durante duas décadas trabalhou na ONG ISA – Instituto Socioambiental.
As dicas do ELOS
Em relação à preservação da água, o Programa ELOS trabalha dicas como escovar os dentes com a torneira fechada, não utilizar o vaso sanitário como lixeira, não acionar a descarga à toa e evitar deixar a torneira pingando durante a jornada de trabalho.
Em termos de energia elétrica, apagar as luzes e desligar o monitor dos computadores na hora do almoço são atitudes recomendadas a todos.
Outro foco de atenção se voltará às impressoras. A orientação é para que o colaborador pense duas vezes antes de imprimir e-mails ou documentos. As impressões antigas, por sua vez, podem virar blocos de rascunho; ou ser reutilizadas.
O programa sugere, ainda, novos hábitos de deslocamento, incentivando o uso do transporte coletivo para atenuar as emissões de gás carbônico, bem como caronas programadas e mais trajetos a pé.

10/06/2026/
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