Histórias envolvendo bairros românticos, ruas cheias de tradição, locais de heroísmo e lendas seculares. Apesar do progresso, Campinas ainda preserva lugares e construções que mantém, até os dias atuais, suas características originais.
Um exemplo desses locais são os becos. Próximo das ruas centrais, eles sobrevivem, resistindo à modernidade. Em sua essência, relembram um tempo de serenatas e namoricos.
Um dos becos mais conhecidos na cidade é a Travessa São Vicente de Paulo. Encravada na área central, com apenas 60 metros de extensão, a Travessa fica entre a Rua Luzitana e o Largo Andorinhas. No passado, o local era usado somente pelos moradores das casas localizadas nas vias paralelas (rua Thomaz Alves e Avenida Benjamin Constant).
A largura desse beco permitia não só a passagem de pessoas, mas também a entrada de animais e de veículos de tração animal. Assim, os quintais daqueles imóveis eram acessados de forma particular e livre.
Em razão da baixa movimentação, a Travessa permaneceu durante muito tempo sem nome. Nem mesmo os seus poucos usuários batizaram o local.
Beco do Inferno
Após a inauguração do Mercado Grande, em 1861, (onde, hoje, é a Escola Estadual Carlos Gomes) e com a construção, em 1886, do Mercado das Hortaliças, que ficava onde, atualmente, está o Largo das Andorinhas; o beco passou a ser mais frequentado.
Entretanto, pela falta de iluminação, o local foi tomado por bêbados, pedintes e prostitutas, que adotaram o espaço como refúgio. Mesmo durante o dia, era possível verificar a circulação desses grupos.
Por conta da algazarra e da degradação, a população passou a chamar a Travessa de Beco do Inferno.
Oficialização do nome
Só em 1906, a Câmara Municipal denominou o beco como Travessa São Vicente de Paulo, em reconhecimento aos serviços prestados pela entidade filantrópica São Vicente de Paulo à pobreza.
Desta forma, a primeira e única denominação oficial da Travessa São Vicente de Paulo perdura até os dias atuais.
Hoje, a Travessa São Vicente de Paula continua, em sua essência, com as mesmas características originais. Junto com a Rua 13 de Maio, é uma das poucas vias com uso exclusivo de pedestres no Centro da cidade.
Cleuza Paganeli tem um salão de cabeleireiro há 23 anos na Travessa. Para ela, o local é uma referência histórica e deveria ser conservado. “O beco já foi lindo. Palco de desfiles, restaurantes e bares. Meus clientes ficavam conversando sentados nos degraus da travessa enquanto aguardavam ser atendidos”, relembra.
Hoje, o local está tomado por grafites, mas mesmo com as mudanças, Cleuza garante que não troca seu endereço comercial, “Eu gosto muito daqui, é um lugar tranqüilo e agradável. Para mim, é o melhor local da cidade.”
O Santo
São Vicente de Paulo nasceu, em 1581, na aldeia Pouy, sul da França. Era o terceiro filho de um casal de camponeses. Aos dezenove anos, foi ordenado sacerdote e passou a ser conhecido como pai dos pobres.
Faleceu em 1660 e foi sepultado na capela-mãe da Igreja de São Lázaro, em Paris, onde seu corpo pode ser visitado até hoje. Foi canonizado pelo Papa Clemente XII em 1737. Em 1885, foi declarado patrono de todas as obras de caridade da Igreja Católica.O Santo é lembrado mundialmente, no dia 5 de abril.
Em Campinas, a entidade São Vicente de Paula foi fundada e sediada na Catedral Metropolitana de Campinas, com o objetivo de ajudar os pobres e abandonados.
Curiosidades
Um fato interessante na história da Travessa é que, quando ainda não possuia denominação, essa via tinha início no Largo das Andorinhas e chegava até a Rua Dr. Quirino. Hoje, ela foi encurtada e chega apenas até a Rua Luzitana.
Segundo historiadores, a redução do trecho pode ter sido resultado de uma negociação, venda, doação, ou simples troca de áreas.
Apoio à pesquisa: Wagner Paulo dos Santos

11/06/2026/
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