Imagens chocantes de acidentes de trânsito envolvendo jovens. Situações reais de atendimentos de urgência às vítimas. Dor e sofrimento estampados na tela. E a certeza de que toda escolha irresponsável ou inconseqüente traz conseqüências na mesma proporção – ou melhor, graves.
Não é um filme de catástrofe ou documentário médico. Mas uma aula diferente que alunos da Escola Estadual Barão Geraldo de Rezende, de Barão Geraldo, tiveram na tarde desta terça-feira, 24 de agosto.
Cerca de 80 alunos dos 2º e 3º anos do Ensino Médio, com idades entre 16 e 18 anos, participaram da atividade, que foi desenvolvida no Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O projeto é uma parceria entre o HC-Unicamp, a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (EMDEC), Secretaria Municipal de Saúde, por meio do Núcleo de Prevenção de Violências e Acidentes, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e do Centro de Referência em Reabilitação; Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Comissão de Prevenção e Educação da Liga do Trauma (CoPELT).
O grupo pôde assistir a palestras educativas com estudantes e representantes das entidades que integram o projeto, estudantes do 2º ao 4º ano de Medicina, que integram a CoPELT; educadores da EMDEC; membros do SAMU; do Núcleo de Prevenção de Violências e Acidentes; Centro de Referência em Reabilitação; Corpo de Bombeiros; e Polícia Militar.
Além disto, participaram de atividades com períodos de reflexões sobre ações seguras no dia-a-dia; e visitações a alguns setores do hospital, como Enfermaria Ortopédica e Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Nestes locais, puderam conversar com os pacientes, ouvindo as histórias de vida e dos acidentes.
O objetivo do projeto é o da prevenção de acidentes a partir da conscientização dos jovens sobre os riscos que estão sujeitos pela combinação extremamente perigosa entre álcool, drogas, direção, imprudência e brigas.
As palestras são voltadas para jovens que já estão em fase de obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e serão futuros motoristas. As escolas participantes são escolhidas pelo alto índice de acidentalidade no entorno.
A grande meta é a de sensibilizar todos os jovens sobre o Trauma. Mas o que é Trauma?
Trauma
Por definição, o Trauma é um acontecimento não previsto e indesejável, de forma mais ou menos violenta, que produz lesão ou dano ao indivíduo. O Trauma envolve uma grande diversidade de eventos, como acidentes automobilísticos, agressões, quedas, ferimentos por arma de fogo (revólveres, pistolas, etc) ou arma branca (facas, canivetes, estiletes, etc), queimaduras, etc.
Ou seja, o Trauma é uma lesão causada por agente externo. Hoje, ele é reconhecido como uma doença, que tem na prevenção a melhor forma de combate. Pesquisas apontam que 90% dos casos de Trauma podem ser evitados, somente fazendo escolhas seguras.
Portanto, as pessoas devem tomar atitudes seguras e evitar fatores de risco, como álcool, drogas, velocidade, inexperiência, falta do uso do cinto de segurança e o uso do celulares ao volante.
Exemplo real
Daniel Pereira de Oliveira tem 24 anos e trabalhava como servente de pedreiro. Trabalhava, no passado, porque há cerca de quatro meses um grave acidente de moto mudou a sua vida.
Foi na estrada que liga Serra Negra a Amparo. Ele estava na garupa da moto do cunhado, quando, numa curva, veio um carro na contramão. A moto bateu na lateral do veículo. O piloto sofreu amputação, na hora, da perna esquerda. Já Daniel teve fraturas múltiplas, também na perna esquerda.
Ficou internado um mês no Hospital de Serra Negra. Agora, está há dois meses e 27 dias, no HC-Unicamp. Já sofreu seis cirurgias e o processo de recuperação deve demorar mais dois anos, incluindo a Fisioterapia.
“A gente pensa que nunca vai acontecer com a gente, mas um dia pode acontecer”, declara Daniel, emocionado, aos estudantes.
Longe dos dois filhos, deixa um conselho aos jovens: “não beba antes de dirigir; e preste muita atenção no trânsito, dirigindo para você e pelos outros”.
Acidente na piscina
O dia 28 de setembro de 1994 não sai da memória de Washington da Conceição Moura, 33 anos. Ele tinha, naquele dia, 17 anos, quando um acidente, pouco comum, mudou completamente a vida dele e de toda a família.
Estava instalando uma piscina, numa chácara, em Atibaia. Após o trabalho, colocou a piscina para encher. Sem verificar se ela já estava com um bom nível de água, correu para mergulhar. A piscina estava sem água e ele quebrou o pescoço. Ficou tetraplégico, perdendo o movimento dos braços e das pernas.
“Foi um choque, porque sempre pratiquei esportes. Alguns radicais, como voo de asa delta. Pedia para o tempo passar rápido, para eu me recuperar logo; mas as coisas não funcionam assim”, conta.
Na família, encontrou o ânimo para seguir em frente. Mesmo enfrentando preconceitos. “Tinha pessoas que me olhavam e falavam ‘coitado’", lembra.
A superação é diária. Hoje, ele joga Rugby. É bicampeão brasileiro, na modalidade para tetraplégicos. Também faz parte do centro de Referência em Reabilitação, de Sousas. Já recuperou parte dos movimentos e um pouco da coordenação motora.
“Tudo o que sou hoje devo a outras pessoas, que me ajudaram quando eu precisei. Portanto, não custa nada eu repassar os meus ensinamentos aos outros", deixa como lição de vida aos alunos.
Depoimentos
As histórias de vida de Daniel e Washington impressionaram os estudantes da escola Barão Geraldo de Rezende. “É muito chocante. A gente pensa que nunca vai acontecer com a gente, mas pode acontecer a qualquer momento”, diz Samira Alves de Oliveira, de 16 anos.
Para a estudante Letícia Góes Pereira, 16, a experiência foi “interessante, chocante e faz despertar a necessidade da prevenção”. Douglas Ferreira, 16, também relata que a atividade foi “bem impactante”.
Carolina Tavares, 17, tem um amigo que sofreu acidente de moto. “Ele fraturou as pernas e ficou bastante tempo na UTI. Estamos sujeito a tudo e temos que tomar cuidado”.
“É uma grande experiência para todo jovem, para despertar a consciência da prevenção”, destacou o estudante Sidnei Antonio Baldin Júnior, 17. A amiga Letícia Cristina Camargo, 17, complementou: “foi muito interessante para despertar a importância da responsabilidade, de não beber, não usar drogas, e prestar atenção no que fazemos”.
Dados
No Brasil, considerando todas as faixas etárias, a primeira causa de mortes é por doenças cardiovasculares; em segundo lugar vem o câncer; e em terceiro estão as causas externas (Trauma).
Mas considerando somente a faixa etária dos jovens (16 a 23 anos), o Trauma é o líder em causas de morte.
No país, 150 mil pessoas morrem todos os anos, vítimas do Trauma. Isto representa uma morte a cada 4 minutos, sendo que a grande maioria é composta por jovens. Além disto, 400 mil pessoas por ano ficam incapacitadas temporariamente ou definitivamente, vítimas do Trauma.
Em 2009, 117 pessoas morreram em Campinas, vítimas de acidentes de trânsito. Deste total, 37 eram pedestres, 57 eram ocupantes de motocicletas e 23 ocupantes de demais veículos (carros, caminhões, etc). Vale destacar que a frota em Campinas fechou 2009 em 684.530 veículos. Com a população em torno de 1.064.669, a taxa de motorização já chegou a 1,56 habitantes por veículo.
P.A.R.T.Y.
O P.A.R.T.Y. (Prevent Alchool and Risk-Related Trauma in Youth, na sigla em Inglês) é um Programa de Prevenção ao álcool e eventos relacionados ao Trauma em Jovens. Foi desenvolvido no Canadá há 20 anos, e tem o objetivo de conscientizar os jovens sobre fatores de risco relacionados ao Trauma, sobretudo, o consumo de álcool.
Os alunos visitam um hospital de referência e são instruídos por uma equipe multidisciplinar (Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos e ducadores) que ministra aulas com conteúdo teórico e prático.
Também são apresentados vídeos e os alunos têm a oportunidade de conversar com pacientes vítimas de acidentes e que apresentam graves sequelas.
Participação da EMDEC
Para aprofundar a conversa com os alunos, incentivando a discussão sobre a importância do respeito às leis de trânsito, segurança, acessibilidade e qualidade de vida, a EMDEC participa do projeto.
Com o uso de vídeos com imagens fortes, procura despertar nos jovens a consciência de se fazer escolhas seguras. Depois, atividades complementares são desenvolvidas em sala de aula.
“A EMDEC tem ações educativas mais sensíveis, mais tranqüilas; mas, também, realiza ações mais chocantes. Tenta mesclar os estilos de ações, realmente buscando a conscientização de todos”, declara Débora Damasco, chefe do Departamento de Programas de Educação da EMDEC.
Saiba mais:
CoPELT
A Liga do Trauma é uma associação de alunos de medicina que, voluntariamente, desenvolvem atividades extracurriculares regulares de aprendizado, capacitação e extensão junto a Disciplina de Cirurgia do Trauma da Unicamp.
Recentemente esses alunos criaram a Comissão de Prevenção e Educação da Liga do Trauma (CoPELT) para realizarem ações que ajudem a diminuir a ocorrência de traumatismo.
“Os acidentes de moto representam a principal causa de traumas por eventos externos. O projeto busca fazer os jovens conhecerem as vítimas e ouvir histórias de imprudências. Com isto, desenvolver um pensamento mais correto em relação à prevenção”, afirma o Dr. Gustavo Pereira Fraga, coordenador da Disciplina de Cirurgia do Trauma.
Além do Canadá, o projeto é desenvolvido em vários países. Aqui no Brasil, é realizado desde 2008, pela Faculdade de Medicina de Universidade São Paulo (USP) de Ribeirão Preto.
SAMU
O Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU) também participa do projeto. Durante a palestra, ocorre a explicação de como funciona o atendimento de emergências médicas, por meio do telefone 192.
Em Campinas, o SAMU é administrado pela Prefeitura e conta com ambulâncias de suporte básico, de suporte avançado (UTI), quatro motolâncias, e, recentemente, com o apoio do helicóptero Águia da Polícia Militar.
A Central Reguladora do SAMU fica na Central Integrada de Monitoramento de Campinas (CIMCamp). Na CIMCamp, também atuam a EMDEC, Guarda Municipal (GM), Defesa Civil e Serviços Técnicos Gerais (Setec).
No momento do recebimento da chamada pelo 192, um médico conversa com a pessoa que está passando as informações. Por meio dessas informações, o médico determina qual tipo de viatura irá atender a ocorrência; e de qual base da cidade ela irá se deslocar. Se há vítimas presas em ferragens, o Resgate do Corpo de Bombeiros também é acionado.
Próxima Visitação
A próxima escola que fará a visita ao Hospital de Clínicas da Unicamp será a Benevenuto Torres, do Parque Universitário. Cerca de 80 alunos dos 2º e 3º anos irão até o hospital no próximo dia 14 de setembro, a partir das 13 horas. A atividade tem duração aproximada de quatro horas.
Outras escolas estaduais também farão parte do programa. São elas: Prof. João Lourenço Rodrigues; Prof. Luis Gonzaga da Costa; Prof. Hilton Federici; Prof. Milton de Tolosa; Culto à Ciência; Jornalista Roberto Marinho; e Prof. Aníbal de Freitas.
Após assistirem as palestras e à visita ao Hospital, os alunos desenvolvem várias atividades em sala de aula sobre a importância da prevenção aos acidentes.




