Não só o compartilhamento do espaço viário deve ser priorizado, mas também o compartilhamento do próprio carro, com a promoção de caronas. Essa foi uma das alternativas ao alcance de todos, apontadas pelo secretário de Transportes Gerson Luis Bittencourt, para reduzir os impactos negativos do uso exagerado do carro, que também inclui o aumento da acidentalidade. Segundo o secretário, levantamentos apontam que cerca de 70% dos carros em circulação transportam apenas uma pessoa. “Normalmente, vemos famílias inteiras indo a um mesmo evento ou destino como shoppings, com vários carros – o transporte individual é, literalmente, cada vez mais individual. E a população deve repensar esse tipo de deslocamento”, argumentou. A afirmação foi feita durante o Seminário “Acidente x Velocidade: um olhar a partir da mecânica e cinética”, realizado no Dia Internacional Sem Carros, que também contou com a participação do professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Celso Arruda; do professor-doutor do Instituto de Física da UNICAMP, Júlio Cesar Hadler Neto; e da professora-doutora Marilisa Berti Barros, do Departamento de Medicina Preventiva, da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP. Marilisa Berti apresentou os dados do Boletim Mortalidade em Campinas – Acidentes de Trânsito: Ocorrências e Mortalidade, produzido pela Secretaria Municipal de Saúde, Centro Colaborador em Análise de Situação de Saúde do Departamento de Medicina Preventiva e Social da FCM-UNICAMP, com a participação especial do Núcleo de Prevenção de Violência e Acidentes e Promoção à Saúde e da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (EMDEC). A médica explicou como é realizado o monitoramento geral da mortalidade global no município, trabalho realizado desde 1990, e deu atenção especial à acidentalidade com motos constatada no levantamento. Ela comentou que no período de 1995 a 2002, os acidentes com este segmento caíram; após 2003, essa tendência mudou. “Hoje, de cada 100 acidentes com motos, 20 deixam vítimas”, contou. Diferença importante nos dados A professora da FCM-UNICAMP também esclareceu as diferenças na metodologia de coleta dos dados sobre os acidentes de trânsito. “A EMDEC computa os acidentes no perímetro urbano e não recolhe os dados das rodovias – que não estão sobre a sua jurisdição. Já a Saúde contabiliza mortes de todos os residentes do município, mesmo que o falecimento ocorra em outras cidades do país”. Estão, neste ponto, as diferenças numéricas. “Para a EMDEC, foram registradas 138 vítimas fatais em 2008 na cidade. Para nós, esse número salta para 308, pois contamos as vítimas residentes em Campinas, as residentes da cidade que faleceram em outros municípios, e os óbitos nas rodovias que contornam a cidade”. Marilisa Berti também destacou que os acidentes de trânsito em 1990 ocupavam a primeira posição no ranking das mortes por causas externas. Mais tarde, os homicídios tomaram à frente; e hoje os acidentes voltam à primeira colocação, informou. Ela lembrou que no ranking ainda aparecem itens como a mortalidade por quedas, resultado do envelhecimento populacional. “Por um lado, é muito boa essa inversão no ranking, em razão da redução dos homicídios”, declarou. Velocidade é também comprada pela sociedade Já o professor Júlio Hadler, do Instituto de Física da UNICAMP, especialista em segurança veicular, defendeu a necessidade de civilizar a relação homem versus automóvel. Ele comentou que o automóvel surgiu como um bem de consumo, mas tornou-se um item da sociedade do superconsumo e um objeto de ostentação. Segundo o físico, na sociedade da pressa, a rapidez e a velocidade passam a ser sinônimos de eficiência. “O homem tem muita pressa e essas mensagens podem sem implícitas nas propagandas dos carros, remetendo à compra também da velocidade”. Para mudar essa relação, somente campanhas educativas de longa duração, defende o físico. “Temos que trabalhar pelo menos o período de uma geração inteira, para mudar isso”. Já o professor Celso Arruda defendeu que, geralmente, os temas relacionados à Mobilidade Urbana são tratados “de forma imediatista”; portanto, “as respostas aos mesmos são precárias”. Afirmou que, mesmo não sendo visionário, os veículos com motor à combustão interna estão fadados ao desaparecimento em poucas décadas, em razão dos danos ambientais. Ele defendeu que a “solução para os deslocamentos é coletiva”. Arruda criticou, no entanto, que o país fez a escolha pelas motos, que são baratas e acessíveis, mas “um transporte perverso”. Como especialista em segurança veicular, o professor foi enfático na defesa da segurança. “O transporte tem que ser primeiro seguro, depois confortável; e aí pode ser veloz. Em muitos casos, ele é seguro, mas falta conforto e velocidade, fato que é uma realidade no transporte público nos grandes centros”, criticou. Denise Pereira

11/06/2026/
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