Diante de um mundo cada vez mais preocupado com a preservação do meio ambiente e os problemas acarretados pelas mudanças climáticas, os biocombustíveis entram em 2010 com óbvio papel de destaque. Por isso, mesmo com o interesse do governo brasileiro pelo petróleo do pré-sal, as políticas voltadas para o etanol e o biodiesel serão valorizadas e vão influenciar significativamente no campo do agronegócio.
Para os produtores de cana-de-açúcar, a perspectiva para o ano é bem mais otimista do que em relação aos últimos dois anos, quando muitos deles enfrentaram prejuízos com a produção. O açúcar deve continuar valorizado no mercado internacional, ao mesmo tempo em que o consumo do etanol deve ultrapassar o da gasolina no País.
O diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única), Antonio Padua Rodrigues, prevê que a safra brasileira de cana, que começa a ser colhida a partir de março, deve crescer 6% neste ano. Mesmo assim o aquecimento da demanda será ainda maior do que o da oferta. Queríamos ter mais etanol para vender, diz.
O analista mostra que 57% da safra deve ser destinada para a produção de etanol, enquanto o restante vai para açúcar proporção de divisão bastante semelhante à da safra anterior. Safras anteriores foram integralmente destinadas à produção de etanol, mas como nos últimos anos o açúcar se valorizou como commodity no mercado internacional, esse quadro mudou, explica.
A grande preocupação dos produtores é em relação às chuvas, já que no ano passado elas prejudicaram significativamente a safra. Rodrigues conta que, mesmo com o aumento na safra de 6,5% ? o que representou 538 milhões de toneladas de cana moída, houve queda de 1% na produção. A cana colhida foi de baixa qualidade, e perdemos sete litros de etanol por tonelada em razão disso. O problema é que o inverno foi bastante chuvoso, o que interferiu no processo.
O diretor do Centro de Cana-de-Açúcar do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Marcos Guimarães de Andrade Landell, também compartilha de projeção semelhante. Para ele, as excessivas chuvas terão um lado positivo, propiciando boas brotas de cana para a próxima safra. Estrategicamente, o ano será importante para a ampliação do mercado externo do etanol. Existe uma boa possibilidade de que o etanol se transforme em commodity nesta década, já que estão começando a ver que a produção do etanol é uma grande oportunidade no mundo E não podemos esquecer que Brasil e Estados Unidos saem na frente, porque detêm 90% da produção do etanol mundial, afirma.
Como São Paulo lidera a canavicultura brasileira, Landell analisa que o Estado deve contar com os efeitos benéficos dessa condição, e que já está buscando se adequar para essa situação. Os investimentos em pesquisa são crescentes, e vemos que o cultivo e produção estão cada vez mais mecanizados e em busca de um processo sustentável. Tanto é que, até 2014, não haverá mais queima de cana em todo o Estado, mostra.
Biodiesel
Em relação ao biodiesel, também estão previstas algumas mudanças. A partir de agora, a adição de biodiesel ao óleo diesel aumentou de 3% para 5%, com o chamado B5. Com isso, a demanda do Programa Brasileiro de Biodiesel deve crescer ainda mais. O presidente do Instituto de Sociedades em Desenvolvimento Auto Sustentável (Isdas), Antonio Carlos Lima Nogueira, também professor da Faculdade de Tecnologia (Fatec), avalia que o projeto tende a crescer bastante nos próximos anos, mas que ainda esbarra em problemas de falta de suprimento. O grande problema do biodiesel é que ainda precisa de um aprimoramento da provisão das matérias-primas. A soja, que atualmente representa 79% do suprimento, é uma commodity e, por isso, tem um mercado bastante instável, o que representa sempre um risco para sua utilização em usinas de biodiesel. O segundo posto é do sebo bovino, o que não representa a melhor opção em termos de impactos ambientais, comenta.
Para ele, a solução passa por um trabalho do governo junto aos pequenos produtores para a produção de matérias-primas aliada ao cultivo de alimentos, além de pesquisas com alternativas promissoras, como o pinhão-manso. É preciso um projeto que garanta o suprimento, com a congregação de esforços de governos, empresas privadas e entidades sem fins lucrativos para a montagem de sistemas produtivos de biodiesel com base em matérias-primas agrícolas ou com a coleta do óleo diesel residual de cozinha.
Pesquisas já testam a celulose
No campo da pesquisa, o coordenador do Laboratório de Hidrogênio da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ennio Peres da Silva, aponta que o grande desafio para a próxima década é conseguir a obtenção de etanol a partir da celulose. Para isso, cientistas querem descobrir ou desenvolver uma bactéria capaz de realizar a chamada hidrólise enzimática para realizar o processo. Seria a descoberta da década ou até mesmo do século. Pois a partir daí praticamente qualquer vegetal, madeira e resíduos agrícolas seriam capazes de gerar etanol. Atualmente, já temos enzimas que fazem isso disponíveis, mas o processo ainda é muito caro, observa.
Em relação ao biodiesel, Silva aponta que as expectativas estão voltadas ao aumento da escala de produção com os diversos projetos já existentes. Isso é importante para se reduzir os custos de produção e tornar o biodiesel mais competitivo. Mesmo assim, uma dúvida ainda paira no ar: com todo o alarde em volta do petróleo do pré-sal, como é que vão ficar os investimentos voltados para os biocombustíveis. O pesquisador reconhece que a conjuntura atual pode se alterar tanto em função do agravamento dos problemas ambientais quanto pelas dificuldades da economia. É algo que ainda não está claro e, por isso, esse quadro pode se transformar nos próximos anos, conclui. (RM/AAN)
Mamona, pinhão-manso e girassol são opções
Plantas são consideradas estratégicas para o desenvolvimento energético
Desde o final do ano passado, quatro centros de pesquisa do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, estão credenciados pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para desenvolvimento de projetos na área de biocombustíveis com investimentos da Petrobras. Com o credenciamento, o IAC deve intensificar as atividades de pesquisa e desenvolvimento na área e liderar projetos multi-institucionais financiados pela empresa de energia.
Os quatro centros de pesquisa credenciados são: Centro de Horticultura, Centro de Grãos e Fibras, Centro de Ecofisiologia e Biofísica e Centro de Recursos Genéticos Vegetais todas essas unidades, situadas em Campinas, foram avaliadas com foco na produção de biocombustíveis.
A coordenadora do Centro de Grãos e Fibras, Lília Sichmann Heiffig-del Aguila, ressalta que a equipe já trabalha com pesquisas com plantas consideradas estratégicas no campo de biocombustíveis nacional, como a mamona, o girassol e o pinhão-manso. O credenciamento vai ajudar a alavancar as pesquisas na área, trazendo maior aporte de recursos, analisa. O pinhão-manso é visto pelos cientistas como uma das plantas mais promissoras para a produção de biodiesel, já que é uma planta perene e não alimentícia e, ao contrário da soja e da mamona, ainda não possui outras potencialidades de uso para gerar concorrência em relação à cadeia produtiva. As pesquisas serão desenvolvidas no Estado inteiro e podemos ter resultados interessantes nos próximos anos.
A coordenadora do Centro de Ecofisiologia e Biofísica, Regina Célia de Matos Pires, diz que as pesquisas dentro do centro serão voltadas para aspectos como clima e irrigação, que interferem na fisiologia nas plantas. São pesquisas que permitem identificar as regiões mais adequadas para cada cultura e a desenvolver adaptações das plantas com as mudanças climáticas, esclarece. (RM/AAN) Fonte: Correio Popular/Agência Anhanguera – Renan Magalhães




