Você já foi para os Estados Unidos? Na América Latina, você conhece o México, a Bolívia, o Paraguai e a Argentina? E você sabia que todos esses lugares estão representados em Campinas? Todos eles estão separados por algumas quadras, ou melhor, esquinas.
Batizadas pela Câmara Municipal, em 1956, o Jardim Nova Europa traz
denominações diferentes para as vias do bairro. Contrariando a tradição de homenagear nomes da história da cidade ou do país, os vereadores decidiram denominar as ruas do bairro, que fazia referência ao continente europeu, com países das Américas.
Apesar de não existir qualquer registro oficial sobre o real motivo, os moradores acreditam que a Câmara quis fazer uma “brincadeira” entre os continentes.
Segundo o historiador Wagner Paulo dos Santos, o bairro fazia parte de uma fazenda pertencente à família Pessanha. “Toda a região foi loteada após os proprietários doarem as terras para a Prefeitura de Campinas”, explica. A denominação do bairro, por sua vez, estava relacionada à imobiliária responsável pelo loteamento. “A empresa que loteou a área chamava Nova Europa. Os vereadores decidiram colocar a região com o mesmo nome”.
As vias receberam cerca de 20 nomes de países do continente americano. A escolha foi feita, provavelmente, de forma aleatória. Com a avenida principal denominada como Estados Unidos, as demais ruas chamam, por exemplo, El Salvador, Guatemala e Cuba.
Com o decorrer do tempo, as antigas plantações de milho deram espaço para casas e novos moradores. João Padovan, 74, é um deles. Após casar, em 1962, escolheu a Rua Honduras como seu endereço residencial.
“Quando eu cheguei aqui, as casas não tinham água e esgoto e as ruas não eram pavimentadas”, conta Padovan. Além dele, um dos oito irmãos também escolheu o bairro para morar. “Meu irmão mora na Rua Argentina. Eu me considero muito bem vindo por todos no bairro”, afirma.
Além das residências, o bairro ganhou também estabelecimentos comerciais. O pioneiro foi um pequeno armazém, de propriedade do pai de Borges Trigo, 79. “Meu pai montou o armazém. Algum tempo depois eu comprei a loja dele e transformei em depósito para material de construção”, conta.
Instalada na Rua Nicarágua desde 1973, a Borges Material de Construção já faz parte da tradição da família. Borges se considera também responsável pela construção das casas no bairro. “Eu tinha um caminhão e decidi abri depósito depois que as pessoas começaram a me contratar para entregar material para construir as casas aqui no Nova Europa”, explica.
No meio dos países, a Praça Panamericana
As características nada comuns não param por aí. Assim como todos os bairros da cidade, o Jardim Nova Europa tem a sua praça, que também é o endereço da igreja.
Localizada no centro da avenida principal, sua denominação engloba todas as homenagens feitas aos países, sendo chamada como Panamericana. Nela, está instalada a Paróquia de Santa Cruz, um dos principais pontos de encontro dos moradores do bairro. Fundada em 1963, diversos freqüentadores da igreja ajudaram, inclusive, na sua construção.
Mário Milan, 84, foi um deles. Logo que chegou ao bairro, ele e sua mulher se simpatizaram pelo padre responsável pela, até então, Capela Santa Cruz. Após um convite, Mario aceitou ajudar como voluntário na construção do Salão Paroquial. “O padre Rui queria construir a igreja, mas como o que ele conseguiu arrecadar não era suficiente, nós decidimos construir primeiro o salão”, conta.
Em apenas seis meses, a equipe de voluntários conseguiu terminar as obras e inaugurar o salão. Como todos eles tinham seus próprios empregos, os trabalhos eram realizados apenas aos finais de semana.
Enquanto os homens ajudavam nos serviços braçais, as mulheres cuidavam da situação financeira da igreja. “Minha mulher também ajudou muito na arrecadação de dinheiro para a construção da igreja. Como o salão paroquial estava pronto, ela era responsável por organizar as quermesses. Ela era quem cuidava de todos os detalhes, desde o vinho-quente até as cadeiras e mesas”, conta Milan.
Hoje, a Paróquia recebe cerca de 800 fiéis por missa. Além do local para as celebrações, possui espaços para as atividades extras da igreja, como catequese, crisma, terços e reuniões litúrgicas. Para André Lunardi, secretário de pastoral, a história da igreja mostra a união da comunidade. “A construção da igreja dependeu muito do trabalho do Seminário Irmãos Maristas, antigo responsável pela área; e pelo serviço voluntário dos fiéis. Seremos sempre gratos a eles”, declara.

